On Marriage Agosto 31, 2006
Mandei este texto para um amigo recem-casado, acreditando ser a melhor receita para se viver a dois.
Pois é, ele devolveu com um texto do Vinicius ( para viver um grande amor…).Desculpa Rafa, mas continuo preferindo não ter um cavaleiro que é meu por inteiro, fico com o ” And stand together, yet not too near together:
For the pillars of the temple stand apart…” Boa sorte e que seu amor seja eterno enquanto dure…
On Marriage
“Then Almitra spoke again and said, “And what of Marriage, master?”
And he answered saying:
You were born together, and together you shall be forevermore.
You shall be together when white wings of death scatter your days.
Aye, you shall be together even in the silent memory of God.
But let there be spaces in your togetherness,
And let the winds of the heavens dance between you.
Love one another but make not a bond of love:
Let it rather be a moving sea between the shores of your souls.
Fill each other’s cup but drink not from one cup.
Give one another of your bread but eat not from the same loaf.
Sing and dance together and be joyous, but let each one of you be alone,
Even as the strings of a lute are alone though they quiver with the same music.
Give your hearts, but not into each other’s keeping.
For only the hand of Life can contain your hearts.
And stand together, yet not too near together:
For the pillars of the temple stand apart,
And the oak tree and the cypress grow not in each other’s shadow.”
Khalil Gibran
Aiversário Agosto 30, 2006

Nasci nos anos 70(no final…) e foi para lá que levei uma legião de amigos mais do que criativos numa noite inesquecível e aparentemente infinita… (faltei pela primeira vez em meu treino de corrida) Aprendi que o melhor de levar algum esporte a sério é se sentir especial no dia em que finalmente faltamos ao treino. Este foi mais um dos presentes que ganhei da Gigi, essa moça de olhos azuis que mora aqui dentro de mim.
Empregadas que falam difícil Agosto 30, 2006
Contratei uma empregada nova e como as anteriores, esta, Mardinéia, tem mania de usar palavras “nobres” como gosta de me explicar. Estas tais palavras, vivem a me “encabrinhar” como costuma dizer a Mardi. Hoje aprendi mais uma.
- Dona Gi (pois é, a mocinha me chama assim!) A Sra. vai ficar muito chateada comigo?
- Não sei Mardi, mas o que você fez?
- Ah dona Gi, a senhora vai se asterroidisa, mas vou falar, viu.Tinham umas frôres ai pra senhora, mas eu mandei o porteiro esperar, tentei chama a senhora, que tava pintando e não me escutou e quando liguei para mandar por no elevadora, eles ja tinham levado embora.
-Flores Mardi? Flores de quem?Eles disseram que horas voltariam?
-Ah isso eu não sei.
-Então vai lá embaixo e pergunta direito ao porteiro, depois volta aqui e me fala.
Nesse meio tempo fiquei imaginando quem teria mandado. Em 10 minutos eu ja tinha feito as pazes e depois brigado com 5 ex namorados, me apaixonado por 2 amigos e me mudado por medo de 1 vizinho tarado. A espectativa crescia apesar de tentar fingir que estas flores não tinham a menor importancia. Já sentia aquelas borboletinhas que voam no estomago das mulheres quando recebem flores de quem gostariam(quem eu esperava nem ao menos sabia meu endereço, mas lógico, minha falta total de lógica criou muitas provaveis soluções ,perfeitamente cabíveis, para esse probleminha).
Já não conseguia mais me concentrar no trabalho. Me arrependi de ter pensado coisas ruins a respeito dele. Aquele comentário bobo no outro dia já começava a ficar insignificante. As histórias terríveis informadas por metade mas mulheres da cidade só poderia ser inveja. Dez minutos se passaram. Estava decidido, as flores só poderiam (deveriam) ser do tal.
-Dona Gi, oh dona Gi, consegui, tá ai. Olha aqui, não era flôr não, era o Seu Flores que veio fazer a manutenção do purificador de águas brastemp.
E assim o tal voltou para o lugar dos esquecidos e os outros, bem os outros, sabe que esses dez minutos me deram ótimas idéias…
O Velório Agosto 30, 2006
Flores coloridas entre faixas douradas. Um homem grande com sorriso no rosto estampa uma das fotos sobre o brilho da madeira impecavelmente lustrada. Pessoas se encontram e inexplicavelmente insistem em se cumprimentar perguntando “Tudo bem?” Escuto risadas, abraços,tapinhas nas costas.
Pelo barulho bem que poderia ser uma reunião de família. “Nossa como você cresceu, quantos anos tem sua filha? Ah é filho? Que maravilha! Que lindo nome.” Mas no silencio entre uma palavra e outra, sinto pensamentos aflitos, perguntas presas na mente. Dúvidas.
Será que ele pulou?Estava tomando anti-depressivos e bebia muito, pode ter passado mal.
Num canto, um menino moreno sentado calado, vestia um sorriso trágico inerte, pálido. Estava só, completamente só.
Pegou a foto caída no chão olhou par baixou nos olhos do homem buscando a todo custo um resto de vida. Nem uma lagrima molhou o papel amassado da foto, olhou para o nada e caminhou até o caixão. “Eu te amo, pai”
Meu priminho Marco Antonio de 17 anos perdeu hoje seu maior herói e companheiro…
Caí Agosto 30, 2006
março 2006
Caí.
Caí do alto de um sonho que sonhou ser realidade, sem saber ser vida.
Caí de um beijo numa praia de areias brancas como o cristal. Caí de uma promessa de amor eterno que durou alguns dias.
Caí de um olhar no fundo do mar que me deu coragem. Caí de um dia de chuva dentro de uma casa que se movia com os namorados aprendendo a se amar na ilusão.Caí!
Caí de tanto sonhar que estava vivendo. Caí de um abraço suado com cheiro de amor. Caí do engano de quem ama e tem medo de errar.Caí de um encontro marcado sem nunca existir.
Caí sozinha, quando tudo o que eu precisava era ter sua mão,seu perdão e a chance de aprender a levantar junto de novo e recomeçar tudo com os pés bem firmes no do chão.
Insensível!Geladeira!Heartless!!! Agosto 30, 2006
setembro 2005
Insensível!Geladeira!Heartless!
Depois de ouvir alguns insultos por não chorar pelos cantos por causa de um ou outro namoradinho, resolvo que talvez minhas amigas tenham razão e o normal seja sentir paixão. Se descabelar por amor. Ter insônia pensando em alguém. Fazer planos incluindo casinha de sapê e vestido branco.
Convencida de ser, eu, esquisita, decido entrar num grupo de terapia.
Não que eu não acredite em terapia, pelo contrario, fiz faculdade de psicologia e só não acabei porque fui morar fora. Acontece que sempre fiz terapia mais para ter alguém com quem conversar do que por tentar me curar de uma loucura qualquer, até porque sem minhas loucuras eu não saberia ser artista.
Primeiro dia, eu, calada, sentindo meio deslocada no meio de tantas emoções.Um homem de seus trinta e poucos anos, se emociona ao contar que sua mãe o mandou embora de casa, pois ela achava que já era hora dele morar sozinho. Uma choradeira!
Não adiantou eu tentar ser invisível, pois a primeira pergunta veio para mim: “O que você sente sobre isso?”Pensei em falar o que minhas amigas falariam “Achei muito bonito ver que ele tem sentimentos”Mas não consegui e soltei o que eu realmente achava: “Não deixo de admirar sua coragem em demonstrar seus sentimentos mais íntimos aqui, mas a meu ver enquanto ele sofre por isso, poderia pegar suas coisas e começar a fazer algo da sua vida, assim, quem sabe não teria tempo para ficar analisando tantas emoções, quem sabe se todos esses anos que ele diz ter passado sofrendo buscando a mãe, ele não aproveitaria melhor se fizesse algo de concreto, aprendesse algo novo, um instrumento musical por exemplo, qualquer coisa, pois acho que muito sentimento acaba atrapalhando nossas vidas”.Não preciso dizer que eles não concordaram, mas de qualquer forma eu entendi o que já imaginava. Na vida ou você sofre pensando em possibilidades e teorias, ou cria suas próprias oportunidades. Eu, ainda prefiro ser uma geladeira à sair chorando as pitangas por ai porque não ganhei um abraço da mamãe antes de dormir. “Quem sabe faz a hora e não espera acontecer”.
Olhares passageiros Agosto 30, 2006
abril 2005
Um bar lotado. Musica alta. Pessoas a procura de carinho, outras de amor. Em cada rosto um pedido, mas a cada olhar, a duvida, e nada a oferecer. Sinto-me um pouco de todos, com um vazio maior. Buraco que por um momento parece se encher entre caipirinhas e blood marys derramados numa alma que procura a paz em meio ao caos.
Meus olhos passeiam entre tantos que me olham, ate tropeçar naquele que não olha, não busca, não pede nada, apenas sente o meu vazio e me contempla sem olhar. Num segundo eterno,de alma desnuda,o silencio consome minha mente, meus medos desaparecem.
Na fantasia de uma menina teimosa, o segundo passou, a menina partiu, mas sobrou a lembrança de um amor passageiro que deixou em seu lugar um sorriso tranqüilo de criança sonhando acordada…
Porco Espinho Agosto 30, 2006
Novembro 2005
Espinhos e mais espinhos, estamos cobertos de espinhos.
Fadados a nos machucar com a proximidade, mas sem nunca perder essa vontade.
A solidão dos risos acaba por colocar uma gota de esquecimento em nossa memória, que sem pensar no passado,
tenta de novo o contato.
Mas somos porcos espinhos.
Será que não vemos que dói?
Sim, dói!E vemos, sabemos…
Mas e a solidão?
Somos porcos ou ermitões?
Podemos respirar sozinhos, comer sozinhos.
Mas aprenderemos a amar sozinho?
Pois é, com o tempo nossa alma aprende a controlar o corpo, aprendemos que a proximidade dói, mas a distancia mata.Então tentamos desesperadamente viver,ainda que cheios de cicatrizes, para que as cicatrizes não vivam dentro de nós.
O mendigo da praça Agosto 30, 2006
22/05/2005
Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar pesado da cidade que não pára.
Deitado entre um cesto de lixo e um banco, um homem. Olhos entre abertos a espionar o dia em que sua vida haveria de mudar, mas ele ainda não sabia disso.Fechou os olhos, apoiou a cabeça no jornal e voltou a flutuar em seus sonhos. Sr.Manuel era nesta vida um personagem eterno, vivendo uma peça sem fim.
Conhecido na região pelo mau cheiro, já foi gente um dia, com emprego e contas para pagar, mas aparentemente, nem mesmo ele se lembrava de tal fato.
Tantos anos ali, naquela praça da alta sociedade, vivendo entre o lixo e o luxo da metrópole paulista.
Os moradores, incomodados com aquele objeto identificado como “um cheiro ruim”, se uniram e mandaram Sr.Manuel ao cabeleireiro, na tentativa de solucionar o problema, dos moradores, é claro. Afinal uma pessoa poderia até morar na praça vizinha á Daslu, passar fome e frio, mas nunca, jamais, enfear a decoração de uma vizinhança como a Vila Nova Conceição.
O velho não tinha casa, perdeu o emprego, a família e o respeito pelo mundo, mas pior que isso, na manhã de hoje, acordou sem história, sem passado, sem futuro, passou a ser um cheiro e mais nada!
O mendigo abriu os olhos, tomou seu café com querosene e olhou para as pessoas paradas na sua frente. Por algum tempo, teve certeza de estar sonhando e voltou a dormir pensando estar acordando.
Um barulho de sirene e vozes agora mais próximas trouxeram de volta um pouco da atenção daquele homem perdido dentro de si.
Tentou se mexer, mas não pôde. Quando enfim acordou,estava sendo puxado por pessoas uniformizadas que diziam levá-lo para casa.
O que estaria acontecendo?O querosene flutuava em sua mente, quando viu uma mulher tirar alguma coisa do bolso e de repente sentiu um líquido gelado percorrer seu corpo, sentindo uma sensação quase mágica, que aos poucos o levou para longe de tudo.
A praça voltou a ter o perfume das árvores, o barulho sumiu, a sirene parou, e naquela mesma manhã, o homem voltou a ser gente vestido de homem em meio a loucos vestidos de branco.
Maria Das Bonecas Agosto 30, 2006
17/05/2005
Boa Esperança era uma daquelas cidades, em que o tempo parou, se é que algum dia chegou a passar por lá.
As calçadas ainda eram altas conforme a porta dos ford 1920 que cruzavam as ruas de paralelepípedo sob o olhar atento das senhoras que das janelas assistiam a vida passar.
O único cinema da cidade, ficava na rua de frente ao casarão cor de rosa de meus avós, fechou no mesmo mês da inauguração por falta de público.
A igreja, imersa em montanhas de areia e dívidas, de uma construção eterna comandadas por um padre que aguardava seu lugarzinho no céu em uma linda fazenda construída do cimento dos fiéis.
Um detalhe, porém, fazia da pacata cidade ser mais que um presépio em tamanho natural;um hospício!
Julho era mês de férias para mim, e também para eles, os “loucos” que na falta de família acabavam vagando pelas ruas.
Uma tarde saí para comprar sorvete e percebi que tinham chegado, a primeira que vi foi Maria das Bonecas. Andava com bonecas amarradas por todo o corpo, além de uma no colo ,chamada por ela de filhinha.
Aquela mulher a quem todos chamavam de maluca, me olhou nos olhos e eu olhei de volta.
Senti uma dor imensa presa nas roupas sujas, no corpo cansado de se apoiar em nada. Ela me falou alguma coisa, mas o turbilhão que invadiu minha mente impediu-me de ouvir .Foi neste instante que um pensamento começou a me incomodar e por muito tempo me seguiu.
Se ela fosse uma criança cheia de bonecas, não seria louca, quem sabe seu corpo cresceu e a alma se perdeu?Senti um medo gelado que me mandou crescer por dentro para não ficar como ela e naquele dia, ainda com dez anos joguei fora todas as minhas bonecas.
tempestade de prazeres na cidade Agosto 30, 2006
Novembro de 2004
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E a capital afoga as magoas em um dia de tempestade e deleites paulistanos.
É quase dezembro, os sininhos de natal tocam para lembrar que as contas estão chegando em dobro, os presentes ainda nos esperam nas lojas e os porteiros do meu prédio, que são muitos não vêem a hora da merecida caixinha de final de ano.
Cenário perfeito para um dia de mau humor na terra natal. Saio de casa de manhã para entregar mais um quadro vendido, apesar de as águas(estranhamente de novembro) encharcarem meus sapatos, o quadro chega a sua nova casa são e salvo.
Eu, presa no transito, estaciono os ânimos um pouco num dos meus lugares preferidos da cidade. Entro e sou como sempre recebida com musicas, subo mais um pouco e chego à sala onde minhas maiores paixões continuam a minha espera, flerto um pouco com vários para então escolher Dostoievski, no caminho ate o café não posso deixar de notar o Luis Fernando Veríssimo em sua mais nova aventura que me chama para um bar na Amazônia.
Enquanto tomo um francino mocha sem chantilly, entro em um afluente do afluente do afluente do rio negro e embarco numa deliciosa aventura.
Já a caminho do instituto Tomie Othake com minha sacolinha dourada cheia de novos moradores para minha biblioteca, continuo na Amazônia do Veríssimo.
Entro na mostra “sonhando de olhos abertos”, um capricho para os olhos de uma artista. Mais um café, mais um momento meu. Abro o catálogo e tenho um daqueles momentos maravilhosos de solidão que só se tem no meio do caos da nossa vida urbana.
Já quase de volta à minha casa, dei uma última parada para conferir algum novo filme na 2001, mas ao entrar encontro com Rubens Ewald filho e sou agraciada com seu novo livro autografado completando um dia perfeito bem no meio de uma tempestade
Inquilino da minha liberdade Agosto 30, 2006
Uma casa só sua, o poder de sair e chegar a hora que bem entender, e melhor, com quem quiser.
Ninguém para te falar que esta exagerando na comida, ou no regime, nenhuma opinião sobre seu trabalho ou suas olheiras.Ah, a liberdade, tão sonhada liberdade…
Hoje me dei conta que, embora ainda falte alguns detalhes, basicamente tenho a liberdade tão desejada.
Dia após dia começo a usar essa liberdade deliberadamente a meu favor, resolvo que sou dona da minha vida e me concedo aqueles delicioso prazeres de quem esta só, por opção, não abandonado, o que é muito diferente. Me lembro dos homens(alguns incríveis outros nem tanto) que eu, com autoridade de chefe de estado votei contra a divisão de território.
Muitas vezes, fui até criticada pelas amigas, por não cair nas graças de algum exemplar masculino muito cotado no mercado. As mulheres, estas sim me olhavam incrédulas, quando dizia que preferia mil vezes ir a um museu sozinha à sair para jantar e ter que ouvir 1 hora de marketing pessoal antes da tacada final, sempre previsível.
Nada como acordar num belo domingo, se arrumar com calma e sair, sem rumo, aproveitar tudo o que a cidade tem de melhor, acompanhada pela cidade é claro.Ir ao encontro de van Gogh no escurinho de algum museu, simplesmente deitar sob uma árvore com Sócrates, ou ainda, andar sem pressa por uma das incríveis feirinhas paulistanas.
Foi depois de vários devaneios de liberdade, enquanto estava sentada num café fazendo o que mais gosto;observar.
Notei uma mulher sozinha, anotando alguma coisa num caderninho, cheia de livros na mesa, parecia até que eu estava olhando para mim. Senti uma pontinha de felicidade por saber que eu era normal.
Um pouco depois levantei, paguei a conta e fui embora. Na saida vi um mocinho (bem interessante, por sinal)correndo com uma florzinha na mão.Do outro lado vinha a moça(aquela que parecia comigo)com um sorrisinho no rosto e uma abraço nas mãos. Fui para casa com meus 10 livros , 5 filmes e nenhuma flor…
Naquele momento tive vontade ouvir aquelas banalidades do dia a dia, tive vontade ter um inquilino para morar nessa minha tão sonhada liberdade.
Celebração do meu dia Agosto 26, 2006
Todos os dias acordo junto com o sol e depois de um suco de muitas frutas, saio a caminho do parque do Ibirapuera para a corridinha essencial. É tão cedo que a cidade ainda não está afogada em buzinas e paulistas estressados. Eu ligo o rádio na 103.3 e escuto no programa do Salomão Schwartzman a celebração do dia por Ciro Delnero.
Hoje, meu aniversário, não teve corrida e nem celebração do dia, já que a noite de ontem durou até hoje. Assim, resolvi fazer eu mesma a celebração do meu dia.
…E foi numa manhã do dia 25 de agosto de uma ano qualquer (segundo Oscar Wilde não se deve confiar numa mulher capaz de revelar sua idade, pois ela seria capaz de qualquer coisa) que um casal conheceu uma menininha apressada que chegou de olhos bem abertos e lacinho vermelho nos cabelos inavcreditavelmente longos. A menininha, metade moneira, metade paulista cresceu, rodou o mundo em busca de uma lar e se descobriu em casa em um único luga: O planeta Terra, de onde não pensa em sair, e viva um pouco em cada canto do pontinho azul e bobo.
No mesmo dia 25 de agosto de 1987, algum outro casal começou o dia com um sorriso nostalgico pensando na viagem de um grande poeta chamado Carlos, ao ler no jornal uma crônica deliciosamente fantástica…
Crônica – Carlos Chega ao Céu
E olhando aquele nuvenzaltodo, comenta: Gente, não éque virei mesmo eterno?Lá no céu, Cecília Meireles acorda cedinho. Mais cedo ainda do que de costume, que ela gosta de espiar os querubins tontinhos de sono. Mas hoje é dia especial. Cecília prende os cabelos, depois toma sua homeopatia (será Dulcamara? Daqui não dá pra ver – pode até ser Stramonium) e lava devagar o rosto na água do arco-íris. Bebe seu chazinho de pétalas de rosa branca – amarela não, que dá azia. Escova devagar as asas, pluma por pluma. Só depois de bem bonita é que bate de leve na porta da nuvem ao lado. Dentro, um resmungo mal-humorado.É Vinícius de Moraes, que virou a noite com o arcanjo Gabriel, conhecendo as bocas da zona da Ursa Maior, aquela louca pirada. Mesmo de ressaca, o Poetinha acorda. “É hoje” – sussurra Cecília na janela que Vinícius se espreguiça: “Ô xará, não é que é mesmo hoje” E vai correndo se aprontar.De braços dados, os dói vão bater à porta da nuvem de Manuel Bandeira. Mas nem era preciso. Manuel á está aceso, debruçado na janela, o nariz um pouco vermelho, fungando e tomando café quente que Irene acabou de prepara. “É hoje” – dizem Cecília e Vinícius. Manuel funga: “E eu não sei, gente? Daqui a pouquinho”. Os três ficam em silêncio, o coração deles começa a bater no mesmo compasso (dodecassílabo? Daqui não dá para ouvir direito) então eles olham para baixo, em direção ao planeta Terra, que gira e gira, meio bobo de tão azul.Aí uma nuvem dourada lá embaixo começa a ficar cada vez mais dourada, a chegar cada vez mais perto. Brilha tanto que os três quase se assustam, até reconheceram São Pedro na direção. Que pena, não dá mais tempo de chamar Pedro Nava. A nuvem aterrissa, São Pedro abre a porta. Um pouco encabulado, atrapalhado com as asas, cabeça baixa. Carlos Drummond de Andrade desce e põe os pés n céu. “Não é que virei mesmo eterno?” – comenta, olhando aquele nuvenzal todo. Então vê os três. Tanto tempo, pois é, tanto tempo, pensei que nem vinha mais.Cecília, você não mudou nada, e essa barriga, Poetinha? Não toma jeito, curou a tosse, Bandeira? Ta mais magro, Carlos, e a Dolores? Vai bem, mandou lembranças, qualquer dia chega por aqui. Irene traz mais café, bem preto, bem forte. Vinícius dá um jeitinho de virar no café uma talagada de uísque da garrafinha que carrega sempre, disfarçada sob a asa esquerda. Os quatro brindam, olhos molhados de saudade satisfeita.Depois olham pro mundo aqui de baixo, que girar e gira, todo azul, assim de longe, e esperam um pouquinho, enquanto bebem o café, até conseguirem localizar, entre nuvens, a América do Sul. Custa um pouco para encontrarem , quase no extremo sul dessa América, um pontinho luminoso chamado Porto Alegre e, bem no centro do coração dessa cidade, um velhinho de cara sapeca, parado em frente a um porta-retratos com a foto da Bruna Lombardi. É o Mário Quintana – eles sabem -, ou será o Anjo Malaquias? (isso nunca ninguém soube). Cecília, Vinícius, Manuel e Carlos sorriem mansinho, espiando Mário lá do céu, lá de cima.Mas a Terra – tão azul assim, vista de longe, vista de cima – eles olham com pena. Sabem que pelo menos metade desse azul todo, depois que eles se foram, brota dali, do quartinho do Mário. Aí suspiram, tadinho, que barra! Um anjo torto vem pedir autógrafo de Carlos. “desguia” – avisa Vinícius. – “Um chato, maior aluguel”. Carlos pergunta de Maria Julieta, Manuel diz que leva ele até lá. Cecília tem um almoço com Clarice e Ana Cristina. Vinícius não sabe se dorme mais um pouco ou se pega o Leon Eliachar para irem até a casa de Elis – será que já acordou, a diaba? -, ta com samba novo na cabeça, precisa cruzar com a Clementina.Cá embaixo, no centro do coração gelado do pontinho luminoso chamado Porto Alegre, pleno agosto, Mário Quintana abre a janela, olha para cima e dá uma piscadinha.Danados, pensa, que danadinhos. O dia parece tão cinzento que não resiste à tentação de escrever um poema. Bem curtinho, bem feliz. Entre lá e cá, girando e girando sem parar, feito louca.A Terra também não resiste. De puro gosto, fica ainda mais azul – você viu?(O Estado de São Paulo, 25/8/1987 – Pequenas Epifanias)
Celebração do meu dia Agosto 26, 2006
Meu dia começa cedinho, antes mesmo do transito afogar a cidade com buzinas e pessoas estressadas.
A caminho do Parque do Ibirapuera para a corridinha essencial, ligo o rádio na 103.3 e vou escutando todo o programa do Salomão Schwartzman e a celebração do dia por Ciro Delnero. Hoje, já que é meu dia e ontem foi minha festa, não teve corridinha, não teve Salomão e nem celebração do dia, apesar de o transito continuar o mesmo.
Resolvi então, fazer eu mesma a celebração do meu dia.
E foi num dia 25 de agosto da década de setenta ( Oscar Wilde dizia em outra época: “Nunca confie numa mulher que diz sua idade. Uma mulher que conta a própria idade é capaz de revelar qualquer segredo”) que apressada, chegou para conhecer a mãe.Vestia roupinha branca e lacinho vermelho em seus cabelos inacreditavemente longos. Esta menina, metade mineira, metade paulista, cresceu, rodou o mundo procurando um lugar para chamar de casa e descobriu que lar para ela é o planeta Terra.
Em outro dia 25 de agosto de 1987, muitos paulistas começaram sua manhã com um sorriso nostalgico e já saudosos de um poeta que viajou no dia 17 e naquele dia 25, mandou noticias através de uma crônica deliciosa no Estado de São Paulo
Crônica – Carlos Chega ao Céu
E olhando aquele nuvenzaltodo, comenta: Gente, não éque virei mesmo eterno?Lá no céu, Cecília Meireles acorda cedinho. Mais cedo ainda do que de costume, que ela gosta de espiar os querubins tontinhos de sono. Mas hoje é dia especial. Cecília prende os cabelos, depois toma sua homeopatia (será Dulcamara? Daqui não dá pra ver – pode até ser Stramonium) e lava devagar o rosto na água do arco-íris. Bebe seu chazinho de pétalas de rosa branca – amarela não, que dá azia. Escova devagar as asas, pluma por pluma. Só depois de bem bonita é que bate de leve na porta da nuvem ao lado. Dentro, um resmungo mal-humorado.É Vinícius de Moraes, que virou a noite com o arcanjo Gabriel, conhecendo as bocas da zona da Ursa Maior, aquela louca pirada. Mesmo de ressaca, o Poetinha acorda. “É hoje” – sussurra Cecília na janela que Vinícius se espreguiça: “Ô xará, não é que é mesmo hoje” E vai correndo se aprontar.De braços dados, os dói vão bater à porta da nuvem de Manuel Bandeira. Mas nem era preciso. Manuel á está aceso, debruçado na janela, o nariz um pouco vermelho, fungando e tomando café quente que Irene acabou de prepara. “É hoje” – dizem Cecília e Vinícius. Manuel funga: “E eu não sei, gente? Daqui a pouquinho”. Os três ficam em silêncio, o coração deles começa a bater no mesmo compasso (dodecassílabo? Daqui não dá para ouvir direito) então eles olham para baixo, em direção ao planeta Terra, que gira e gira, meio bobo de tão azul.Aí uma nuvem dourada lá embaixo começa a ficar cada vez mais dourada, a chegar cada vez mais perto. Brilha tanto que os três quase se assustam, até reconheceram São Pedro na direção. Que pena, não dá mais tempo de chamar Pedro Nava. A nuvem aterrissa, São Pedro abre a porta. Um pouco encabulado, atrapalhado com as asas, cabeça baixa. Carlos Drummond de Andrade desce e põe os pés n céu. “Não é que virei mesmo eterno?” – comenta, olhando aquele nuvenzal todo. Então vê os três. Tanto tempo, pois é, tanto tempo, pensei que nem vinha mais.Cecília, você não mudou nada, e essa barriga, Poetinha? Não toma jeito, curou a tosse, Bandeira? Ta mais magro, Carlos, e a Dolores? Vai bem, mandou lembranças, qualquer dia chega por aqui. Irene traz mais café, bem preto, bem forte. Vinícius dá um jeitinho de virar no café uma talagada de uísque da garrafinha que carrega sempre, disfarçada sob a asa esquerda. Os quatro brindam, olhos molhados de saudade satisfeita.Depois olham pro mundo aqui de baixo, que girar e gira, todo azul, assim de longe, e esperam um pouquinho, enquanto bebem o café, até conseguirem localizar, entre nuvens, a América do Sul. Custa um pouco para encontrarem , quase no extremo sul dessa América, um pontinho luminoso chamado Porto Alegre e, bem no centro do coração dessa cidade, um velhinho de cara sapeca, parado em frente a um porta-retratos com a foto da Bruna Lombardi. É o Mário Quintana – eles sabem -, ou será o Anjo Malaquias? (isso nunca ninguém soube). Cecília, Vinícius, Manuel e Carlos sorriem mansinho, espiando Mário lá do céu, lá de cima.Mas a Terra – tão azul assim, vista de longe, vista de cima – eles olham com pena. Sabem que pelo menos metade desse azul todo, depois que eles se foram, brota dali, do quartinho do Mário. Aí suspiram, tadinho, que barra! Um anjo torto vem pedir autógrafo de Carlos. “desguia” – avisa Vinícius. – “Um chato, maior aluguel”. Carlos pergunta de Maria Julieta, Manuel diz que leva ele até lá. Cecília tem um almoço com Clarice e Ana Cristina. Vinícius não sabe se dorme mais um pouco ou se pega o Leon Eliachar para irem até a casa de Elis – será que já acordou, a diaba? -, ta com samba novo na cabeça, precisa cruzar com a Clementina.Cá embaixo, no centro do coração gelado do pontinho luminoso chamado Porto Alegre, pleno agosto, Mário Quintana abre a janela, olha para cima e dá uma piscadinha.Danados, pensa, que danadinhos. O dia parece tão cinzento que não resiste à tentação de escrever um poema. Bem curtinho, bem feliz. Entre lá e cá, girando e girando sem parar, feito louca.A Terra também não resiste. De puro gosto, fica ainda mais azul – você viu?(O Estado de São Paulo, 25/8/1987 – Pequenas Epifanias)
