Jung usaria a sincronicidade. Freud as pulsões. Eu, explico meu amor pela Grécia pelo simples fato de sua cultura, filosofia e história serem como um grande conto de fadas, porém, tudo faz sentido.
Os Gregos, embora hoje não sejam tão lembrados, é o povo mais sábio e intrigante que já conheci. E como dizia meu pai; “Há que se comer um saco de sal em companhia de alguém, antes de conhecer a pessoa de verdade.” Ora, muitos devem ter sido os sacos de sal que comi em solo ou mar grego.
Mais ainda, foi o tempo que passei lendo sobre este país que encontra beleza e filosofia em tudo.
Muito do que somos ou pensamos hoje veio deles, do povo que já usava a mente em 1500 ac.
Deixemos de lado (por enquanto), parte do fascínio deste povo, para focar na culinária.
Eu, que já trabalhei de chef, garçonete e até hostess em restaurantes de NY, adoro os segredos da culinária.
Vivo um pouco, como no filme Como Água para Chocolate, levo a sério o que comemos.
E foi em Mikonos, numa casinha branca, que descobri a paixão visceral pela coalhada seca. Até aquele verão, alguns anos atrás, acreditava que a coalhada era um prato árabe ou libanês.
Zia Hamsssa, uma senhora cheia de vigor como dizem os gegos (obesa e muito alegre, diríamos), ensinou que foram eles, os gregos, ou helenos como era conhecido todo o povo que falava grego,mesmo que não vivesse na Grécia, que deu origem a muitos outros povos.
Como a Grécia é um aglomerado de ilhas, ficava muito difícil trazer e manter alimentos frescos. Os homens, sábios filósofos, criadores de fundamentos de justiça e liberdade individual ainda hoje respeitados, precisavam alimentar sua alma e seu intelecto. Sábios, acreditavam que a hora das refeições era sagrada, deveria ser também um momento de discussão, de compartilhar idéias e sentimentos. De aprender com os outros.
Um grego nunca, jamais, come sozinho. A maioria das comidas gregas, são feitas em grandes porções. As refeições, banquetes com muita variedade de sabores e perfume. Esta é mais uma lição. Embora a mesa esteja sempre farta, não devemos comer além do que precisamos, a gula, é o pecado dos egoístas. Os sábios escolhem com calma o que comer, matam a fome do corpo e depois, com o vinho e os amigos, matam a fome do intelecto. A luz do conhecimento, já contava Platão em um de meus mitos preferidos, o mito da caverna, é a maior fonte de prazer, mas pode cegar os “ignorantes”, mas isso já é assunto para outro post.
A tradição da comida e da música é coisa séria para os gregos. “A música, minha filha, alimenta a mente e dá equilíbrio. A comida é sagrada, abençoada por Zeus ou por Hades (deus do inferno), depende de quem cozinha, por isso, ninguém coloca a mão na minha comida sem pedir permissão. A coalhada seca é a base de tudo, pura, nutritiva, porém forte e com personalidade, como os gregos.” Dizia uma Zia Hamssa já com as bochechas vermelhas de tanto mexer o caldeirão de leite.
E foi assim, em meio a deuses e tradições, que começou o que hoje chamo de coalhadoterapia, ritual de um dia e duas noites até que fique pronta a coalhada e quem a prepara.
Ontem, ao som de música e cheia de idéias na cabeça, comecei o preparo da comida dos deuses. Como de costume, começo numa noite inspirada, de preferência com céu estrelado. Todas às vezes, lembro do rosto rosado e sempre feliz da Zia Hamssa, afinal tudo o que sentimos enquanto cozinhamos passa para a comida. Durante dois dias, esqueço de todo o meu ceticismo.
A cada passo, uma lição. A cada gota de soro que escorre pelo ralo da pia, mando junto um problema. Assim aprendi o segredo de uma tradição milenar. Amanhã, coalhada pronta, amigos reunidos, narguilé, vinho, musica e muita alegria enquanto comemos a coalhada e falamos da vida.
Assisti, já faz muito tempo, um filme que me fez lembrar da Zia Hamssa, ela era como o avô da personagem do filme “O Tempero Da Vida”.