Publicado no www.lolitabrasilmagazine.com.br
Semana passada fui aprender a viver com a Gloria Menezes, não sabia que ela dava aula disso? Pois dá, no teatro da FAAP. Aprendi um pouco mais da arte da vida e da falta dela. Começou logo na entrada. Não entendo nosso mundo, devo ter ficado de recuperação na aula de “para que serve”, a porta da FAAP tem aquele sensor anti-armas-metais-facas-cintos de peruas-etc para nossos civilizados ladrões passarem e ouvirem o apitinho, logo ao lado porém, tem uma porta sem sensor nenhum para o resto dos cidadãos.
Passei sem maiores apitos e fui direto ao café do teatro em busca de alguma coisa que combinasse com minha difícil realidade de procurar por alimentos digestíveis e reconhecíveis. Opa, sanduíche natural, li no cardápio, ensaiei um sorriso e já ia pedir quando lembrei do último brigadeiro que cruzou meu caminho. Vocês já repararam que as comidas estão ficando fashion? Pois é, um dia desses vi um brigadeiro vermelho com pó de ouro, não comi com medo de ver o ouro descarga abaixo.
Com medo de mais surpresas já que eu estava prestes a aprender a viver, perguntei o que tinha no sanduíche natural, assim quem sabe eu poderia tirar algum pó de ouro inesperado. – Ah não, o sanduíche já vem pronto, embalado, ta aqui ó, pode ler aí os ingredientes, disse Naná ,vi seu nome no crachá.
Peguei a caixa de plástico transparente com o que parecia ser um daqueles sanduíches de borracha que colocam nos bares dos aeroportos para ajudar os gringos a entender o que é salame, peru, ou alface. Dei uma rápida olhada ao redor e voltei os olhos para a embalagem: era algo como, pão de forma branco, gordura vegetal ionizada, salame, mayonese,etc..
Não agüentei, devolvi o sanduíche e fui correndo para o banheiro, peguei o celular e entrei na internet, dicionário!
do Lat. Natural eadj. 2 gén., relativo ou pertencente à Natureza;produzido pela Natureza ou conforme as leis da Natureza;não provocado pelo homem, espontâneo;ingénito;peculiar;inato.
Voltei ao balcão e vi quando a Naná veio sorrindo enquanto pensava Ah essa gente estranha que aparece aqui, não sabe nem o que é sanduíche natural, coitada, será que vai me perguntar também o que é pão de queijo…-Posso te ajudar?
Pedi um pão de queijo, mas minha vontade era dizer a ela que aquilo não era sanduíche natural, que Naná não era nome e sim apelido, que sensor anti-roubo com porta ao lado não era sensor, que x-burguer sem queijo” não era cheeseburger, que pai que joga a filha da janela não é pai, que representantes do povo que roubam não são representantes de povo nenhum, e que o mundo estava do lado do avesso e eu não estava conseguindo entender.
O sino do inicio da peça tocou e dois minutos depois já havia passado as quase duas horas de peça e de aula. Maud me ensinou muito do que eu não estava entendendo, por exemplo que em todas as portas passavam ladrões mas que os piores são aqueles que roubam o que não tem preço e o que não tem sensor, aprendi também que natural para um não é natural para outro mas que a natureza deveria ser a mesma para todos. Ensinar a viver não é tão difícil, duro mesmo é aprender a viver.